Como decisões humanas apagam ou silenciam determinadas vozes e imagens no sistema digital, que reproduz o erro para sempre
Imagina a cena em que você descobre que está sendo homenageada por um jornal de grande circulação nacional, com foto estampada na edição impressa. Mas, ao se deparar com a matéria, encontra a foto de outra pessoa no lugar da sua.
Até aí, poderíamos olhar apenas para um erro crasso de uma redação que, após ser alertada, substituiu a imagem no meio digital e colocou um pedido de desculpas, pequeno, ao final da própria matéria. O problema é que vivemos em um mundo digital onde as redes e a internet nos guiam, seja para conhecimento ou para pesquisas ou para buscar informações. E em um ambiente sem regulação, transparência e responsabilidade com a memória, o que parece uma falha pontual se transforma em um problema estrutural e permanente.
As vítimas desse episódio foram Nina Da Hora, cientista da computação e ativista antirracista, citada pelo O Globo na lista dos 101 “Brasileiros que Constroem o Futuro”, publicada no dia 26 de julho de 2026, e a pedagoga e escritora brasileira Lu Ain-Zaila, que teve a foto publicada como se fosse Nina.
O erro atingiu um mecanismo severo de invisibilização dupla. De um lado, a homenageada tem o reconhecimento da sua imagem ceifado; do outro, a pessoa retratada tem sua trajetória trocada. Em suas redes sociais, Lu Ain-Zaila reagiu com desabafo e ironia sobre a situação.
“Um duplo apagamento que tá me fazendo pensar se não devo fazer uma blusa escrita ‘Não sou a Nina, mas conheço…’”
“A pessoa trabalha um monte e tem seu reconhecimento ceifado. A outra rala um monte e tem sua trajetória trocada, vira a ‘outra mulher negra não encontrada’. Me senti desaparecida e certas mídias deveriam saber quem eu sou SIM (…). Muito Axé pra essa semana não acabar com mais gente desaparecida, sem rosto ou sem nome.”, completou Lu Ain-Zaila.
As consequências do erro não pararam na impressão do jornal. Como alertado por Nina Da Hora, a foto de Lu Ain-Zaila, que já constava incorretamente catalogada no banco de imagens do jornal desde 2022, passou a ficar atrelada ao nome de Nina por algoritmos de Inteligência Artificial e motores de busca como o Google, perpetuando a desinformação de forma automatizada na web.
O fenômeno de Epistemicídio Computacional
Por uma triste ironia, Nina é uma célebre pesquisadora do assunto e resolveu analisar a fundo o acontecimento ocorrido com ela mesma. O relatório, chamado “Quando o nome vira a verdade”, demonstra que a troca de fotos não foi um mero acidente operacional, mas uma manifestação concreta de epistemicídio computacional, termo desenvolvido por Nina em sua dissertação de mestrado, inspirada nas reflexões de Sueli Carneiro.
O episódio envolvendo a troca de fotos de Nina da Hora e Lu Ain-Zaila materializa o fenômeno que Nina chama de “epistemicídio computacional”. O caso ilustra de forma prática o “sequestro da condição de sujeito do conhecimento”, um apagamento digital onde, segundo o relatório, “a pergunta ‘quem é essa pessoa’ deixou de ser respondida pela pessoa e passou a ser respondida por um registro que ela não escreveu, que não pode consultar e sobre o qual não tem permissão de escrita”.
Ao indexar incorretamente a imagem, o sistema esvaziou a identidade das duas mulheres, tornando-as “epistemicamente inertes” perante o fluxo de dados que passou a consumir cegamente o rótulo. Como alerta a autora, a justificativa comum de que a imagem simplesmente “estava catalogada com o nome errado” apenas confessa uma arquitetura cega, já que o banco “não guarda quem está na foto. Guarda quem alguém escreveu que está na foto”. Quando esse apagamento se consolida por meio de correções digitais silenciosas e sem erratas transparentes, estabelece-se uma grave disparidade de poder e memória, pois, no limite, “quem controla o arquivo controla o que aconteceu”
APAGÃO DE DADOS
A dinâmica da correção silenciosa e do erro de acervo dialoga diretamente com o debate sobre a preservação da informação pública no Brasil. A fragilidade da memória digital não afeta apenas perfis individuais, mas também o acesso coletivo à informação e à transparência institucional.
Episódios de retração de acervos governamentais e públicos, como os ocorridos na Empresa Brasil de Comunicação (EBC), em que cerca de 150 mil conteúdos foram retirados ou desindexados dos portais devido a uma interpretação rígida e cautelosa do defeso eleitoral, fez com que os acessos ao portal da EBC caissem mais de 65%.
O chamado “defeso eleitoral” estabelece um conjunto de proibições e regras sobre a administração pública, previstas na Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) e disciplinadas pela Resolução nº 23.735/2024 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O objetivo é assegurar a igualdade de oportunidades entre as candidaturas.
Isso demonstra como o ecossistema digital é suscetível a “apagões de dados”. Essas remoções em massa provocam quedas drásticas no alcance público de portais de comunicação pública e comprometem o direito fundamental do cidadão de pesquisar e acessar o histórico recente do país.
Em ambas as situações, seja na substituição sem rastros de uma foto trocada em uma publicação de grande circulação ou no apagamento institucional de milhares de reportagens públicas, o impacto final na sociedade é análogo: a perda de rastreabilidade, o comprometimento da verdade e o enfraquecimento da memória coletiva na internet.
O que foi vivenciado por Nina Da Hora e Lu Ain-Zaila não são pequenas falhas pontuais. Eles são sintomas de uma estrutura de dados e de acervos que desumaniza corpos negros, tratando identidades e trajetórias distintas como elementos intercambiáveis.
O esquecimento e o apagamento não podem ser encarados como inevitáveis. Exigir transparência em bancos de imagens, responsabilidade editorial, regulação de plataformas e preservação ostensiva dos acervos públicos é o único caminho para garantir que nomes não virem falsas verdades e que pessoas reais não continuem sendo apagadas das telas e da história.
Nina da Hora falou ao SGBR com exclusividade sobre o episódio.
Veja abaixo:
Como o racismo atravessa esse episódio? Por que casos como esse tendem a afetar de forma desproporcional pessoas negras e quais são as consequências dessa dinâmica para a representação e a identidade dessas pessoas no ambiente digital?
“O que os documentos mostram é um erro de catalogação humana num acervo comercial: uma imagem recortada e registrada com metadados errados desde 2022, enquanto a fotografia correta já existia no mesmo acervo. Não vou especular sobre a intenção de quem fez isso, e não preciso. O que minha pesquisa demonstra é que erros desse tipo não se distribuem ao acaso: eles se concentram sobre pessoas negras, e sobre mulheres negras em particular, porque operam sobre uma premissa antiga de intercambialidade, a ideia de que somos substituíveis umas pelas outras, de que a verificação é dispensável quando o rosto é negro.
O racismo aqui não está num indivíduo: está no padrão de quem é conferido e quem não é. A consequência digital é grave porque a infraestrutura de busca fixa propaga o erro: a associação errada passa a ser a resposta que o mundo recebe quando pergunta quem você é. Para pessoas negras, cuja presença nos arquivos já é historicamente rarefeita, cada erro desses não é só uma troca de legenda. É uma camada a mais de apagamento sobre registros que já eram escassos.
E há uma segunda mulher negra nessa história: Lu Ain-Zaila, uma das primeiras escritoras afrofuturistas do Brasil, cuja fotografia foi publicada sem que ela fosse identificada, consultada ou procurada. Uma autora que escreve sobre futuros negros foi reduzida a um rosto sem nome num caderno comemorativo. O caso não apagou uma pessoa, apagou duas: eu tive o nome sem o rosto, ela teve o rosto sem o nome ela também tem direito a existir com nome próprio. “
Você cunhou o conceito de “epistemicídio computacional”. Ele pode ser usado para explicar o que aconteceu com você?
“Ajuda a explicar, mas talvez não da forma que se espera, e essa é a parte mais importante. A primeira proposição do relatório técnico que publiquei sobre o caso é que nenhuma inteligência artificial participou desse erro: havia um banco de imagens, um campo de metadado e uma redação. Epistemicídio computacional, como venho desenvolvendo, não é “o algoritmo errou”.
É o processo pelo qual sistemas computacionais herdam, fixam e escalam decisões humanas sobre quem é reconhecível e quem é ruído. Este caso é quase um experimento natural do conceito: uma decisão humana de catalogação errada, tomada uma vez, foi reproduzida pela infraestrutura de acervo, licenciamento e indexação por anos, sem que nenhum ponto da cadeia verificasse.
A máquina não inventou o apagamento; ela o tornou permanente e pesquisável. Por isso desconfio de explicações que jogam a culpa no “sistema”: elas convenientemente dissolvem a responsabilidade de quem alimenta o sistema. O relatório completo, com as quatro proposições demonstradas, está disponível com DOI em [link do Zenodo].
Além do Google, qual é a responsabilidade do jornal ao cometer um erro tão grave como esse? O que pode ser feito no futuro para evitar que situações como essa voltem a acontecer?
“A responsabilidade é integral e independe do mecanismo do erro. E ela não termina na retratação pública: a correção precisa acontecer na origem, ou seja, legenda, texto alternativo, metadados do arquivo e, sobretudo, o registro no acervo comercial que licencia essa imagem a terceiros. Enquanto o registro-fonte estiver errado, cada nova republicação nasce errada “de boa-fé”, e o buscador reaprende o erro a cada rastreamento. Corrigir só a página visível é enxugar gelo.
Para o futuro, o que proponho é simples e barato: protocolo de verificação de identidade antes da publicação de imagens de pessoas, com atenção redobrada exatamente nos grupos onde o histórico mostra que a conferência falha; e obrigação de comunicar correções a todos que licenciaram o material errado, como a própria LGPD já prevê. Jornalismo que verifica fonte escrita e não verifica rosto está dizendo, na prática, quais existências considera conferíveis.”
Você chegou a tentar entrar em contato com o Google e com o jornal para resolver essa questão? Se sim, foi fácil conseguir esse contato?
“O primeiro contato foi no sentido inverso: fui eu quem avisou o jornal de que estava tudo errado. Eles não tinham percebido nada. A detecção do erro, a análise técnica da sua origem e a documentação do caso foram feitas por mim, a pessoa afetada, e não por qualquer mecanismo de verificação interno do veículo. Isso diz muito sobre onde está, hoje, o custo desses erros: recai inteiro sobre quem foi apagada.”
Edição: Ana D’Angelo
Designer: Daniel Ferreira Luiz