O Twitter, a rede do passarinho, nunca foi a plataforma mais acessada no Brasil nem no mundo. No entanto, sua influência nunca ficou restrita a um nicho. Ela tinha algo que a diferenciava: a credibilidade. Governos, jornalistas e figuras públicas tinham seus perfis para publicar declarações, cartas e avisos. Dali, as informações saíam para outras redes e para os jornais.
O Twitter, criado por Jack Dorsey, Evan Williams, Biz Stone e Noah Glass lá em 2006, não era perfeito. Tinha diversos problemas de moderação, como qualquer outra big tech. O próprio Sleeping Giants chegou a fazer campanhas pedindo melhorias.
Mas, quando a rede foi comprada por Elon Musk, as coisas mudaram. Sua credibilidade foi se perdendo e o ódio ganhando espaço. A raiva virou motor da plataforma.
O ambiente de luta e amizade foi dando lugar à hostilidade e à caça ao engajamento, impulsionadas pelas decisões de uma única pessoa.
A compra da plataforma ocorreu há quatro anos, por 44 bilhões de dólares. O dia exato do aniversário da aquisição é 27 de outubro. Desde então, o passarinho perdeu o nome, o selo azul mudou de significado, e a rede virou palco de disputas que ultrapassam a tela do celular.
Veja alguns dos acontecimentos que marcaram esses quatro anos.
Outubro de 2022: a compra e as primeiras demissões
Musk assumiu o Twitter e começou pela saída de integrantes da cúpula da empresa. Poucos dias depois, em novembro, vieram as demissões em massa: aproximadamente metade dos funcionários foi dispensada, cerca de 3.700 trabalhadores. Os cortes também atingiram a equipe de confiança e segurança, responsável por lidar com conteúdo nocivos e violações das regras da plataforma.
Em dezembro, a empresa dissolveu o Conselho de Confiança e Segurança, grupo que reunia organizações e especialistas para aconselhar a rede sobre questões como assédio e proteção dos usuários.
Novembro de 2022: a credibilidade do selo azul para quem paga
Antes, o selo azul ajudava a identificar contas autênticas de figuras públicas, jornalistas e instituições, e era cedido pela própria plataforma. Sob Musk, ele passou a integrar uma assinatura paga.
A mudança abriu espaço para uma onda de perfis falsos que se passavam por empresas e personalidades. A confusão foi tanta que o Twitter precisou suspender temporariamente a venda da assinatura. Um dos casos envolveu uma conta falsa da farmacêutica Eli Lilly, que anunciou que a insulina seria gratuita.
2022: Notas da Comunidade ganham espaço
As Notas da Comunidade se tornaram uma das principais apostas da plataforma para contextualizar publicações enganosas. Mas a ferramenta não nasceu com Musk: foi criada em 2021, com o nome Birdwatch, e rebatizada em novembro de 2022.
O sistema permite que colaboradores proponham notas e avaliem as contribuições de outras pessoas. Uma publicação receber uma nota não significa, por si só, que ela será removida pela plataforma.
Mas as Notas da Comunidade também têm falhas. Segundo reportagem do Aos Fatos, menos de 7,4% das notas propostas sobre a eleição presidencial dos Estados Unidos de 2024 chegaram a ser exibidas ao público. O sistema foi usado para ataques coordenados: uma publicação confiável do deputado Orlando Silva foi classificada como falsa, enquanto uma notícia sobre a agressão a uma mulher trans recebeu uma nota transfóbica e desinformativa. Ou seja, a ferramenta criada para ajudar a corrigir mentiras também pode ser usada para espalhá-las e alimentar disputas políticas.
Janeiro e fevereiro de 2023: menos espaço para aplicativos e pesquisadores
O Twitter bloqueou aplicativos de terceiros, como Tweetbot e Twitterrific, e anunciou o fim do acesso gratuito à sua API, a ferramenta que permitia a outros sistemas consultarem dados e interagir com a plataforma.
As mudanças atingiram desenvolvedores e serviços construídos ao redor da rede, além de dificultarem o trabalho de quem dependia desse acesso para acompanhar o que circulava por lá.
Julho de 2023: o passarinho perde o nome
O Twitter passou a se chamar X. O passarinho azul deu lugar à letra que representava a ambição de Musk de transformar a rede em um “aplicativo para tudo”.
A mudança de identidade veio enquanto a plataforma já enfrentava conflitos com anunciantes e questionamentos sobre sua moderação.
Novembro de 2023: marcas suspendem anúncios após denúncias de conteúdo nazista
A IBM suspendeu sua publicidade no X depois que a organização Media Matters apontou anúncios da empresa ao lado de publicações que promoviam Adolf Hitler e o Partido Nazista.
Outras grandes marcas também interromperam campanhas em meio à repercussão de conteúdo antissemita e de uma publicação desse tipo endossada por Musk. A crise expôs um problema direto para os anunciantes: onde suas marcas estavam aparecendo e o que estavam ajudando a financiar.
(Elon Musk entra na Justiça contra grupo de “boicote”.)
2024: o confronto com a Justiça brasileira
Em abril, Elon Musk anunciou que desobedeceria a decisões da Justiça brasileira sobre o bloqueio de perfis no X. O empresário acusava o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de censura. Moraes, por sua vez, incluiu Musk no inquérito das milícias digitais e abriu outra investigação para apurar possíveis crimes de obstrução à Justiça, organização criminosa e incitação ao crime.
O confronto se intensificou nos meses seguintes. A plataforma acumulou multas por descumprir ordens judiciais e, em 17 de agosto, anunciou o fechamento de seu escritório no Brasil, deixando de ter representação legal no país. Em 28 de agosto, Moraes deu um prazo de 24 horas para a indicação de um novo representante, sob pena de suspensão das atividades. A intimação foi publicada no próprio perfil do STF no X.
Sem o cumprimento da exigência, o ministro determinou, em 30 de agosto, a suspensão da rede em todo o território nacional. A decisão estabeleceu três condições para a volta: cumprir as ordens judiciais, pagar as multas e indicar um representante legal no Brasil. O bloqueio foi posteriormente confirmado pela Primeira Turma do STF.
Depois de cerca de 40 dias de suspensão, a empresa recuou. Cumpriu as determinações de bloqueio de perfis, regularizou sua representação no país e pagou R$ 28,6 milhões em multas. Em 8 de outubro, Moraes autorizou o retorno da plataforma. Depois de meses de confronto, o X voltou a funcionar ao atender às exigências da Justiça brasileira.
Foi uma derrota acachapante para o trilionário, que se achava o dono do mundo por ser o homem mais rico do planeta.
Julho de 2024: Musk declara apoio a Trump
Musk anunciou publicamente seu apoio a Donald Trump na eleição presidencial dos Estados Unidos. O dono da plataforma passou a usar sua própria conta, com enorme alcance, para defender o candidato.
A atuação política do empresário colocou no centro do debate a concentração de poder nas mãos de quem controla uma rede social e, ao mesmo tempo, participa diretamente das disputas políticas que circulam nela.
Durante a campanha de meio mandato dos EUA de 2026, Musk chegou a doar mais de 470 milhões de dólares para ações de republicanos.
Em novembro de 2024, Trump nomeou Musk para chefiar o DOGE, um órgão consultivo externo, cujo objetivo era cortar gastos públicos, enxugar agências federais e reduzir regulamentações.
Outubro de 2024: engajamento passa a pesar no pagamento aos criadores
O X mudou seu programa de remuneração para considerar as interações de usuários Premium com os conteúdos, o que provocou uma corrida por engajamento, a qualquer custo.
É nesse contexto que entra o chamado rage bait: publicações feitas para provocar indignação e estimular respostas.
Mentiras, conteúdos repetitivos e ódio passaram a ser comuns na plataforma.
2024: usuários procuram outros espaços
O bloqueio no Brasil e a eleição nos Estados Unidos marcaram ondas de crescimento de alternativas como o Bluesky. Jornalistas, organizações e usuários passaram a buscar outros lugares para conversar e compartilhar informações.
Janeiro de 2026: Grok e a produção de imagens sexualizadas sem consentimento
O Grok, ferramenta de inteligência artificial integrada ao X, passou a ser alvo de denúncias pelo uso de fotos de pessoas reais para produzir imagens sexualizadas sem consentimento. Os casos também envolveram crianças e adolescentes.
No Brasil, ANPD, Ministério Público Federal e Senacon recomendaram medidas para impedir a geração e a circulação desse conteúdo. Depois, cobraram providências imediatas para corrigir as falhas identificadas.
2026: pesquisas ajudam a avaliar o algoritmo e as Notas da Comunidade
Um estudo publicado na Nature, baseado em um experimento realizado em 2023, identificou que a exposição ao feed algorítmico do X deslocou opiniões políticas dos participantes para posições mais à direita.
Abril de 2026: tradução automática amplia o acesso a publicações
Mas, felizmente, em toda a história da plataforma desde a compra por Elon Musk, não há somente decisões péssimas. O X anunciou a expansão mundial da tradução automática com tecnologia do Grok. O recurso pode facilitar o contato com publicações em outros idiomas, ampliando o acesso a conversas que antes esbarravam na barreira da língua.
Essas barreiras quebradas tiveram grande força após as eleições brasileiras, com progressistas de todo o mundo pedindo conselhos aos brasileiros sobre como vencer a extrema-direita. Ou a fatídica pérola de um perfil chinês, após o primeiro turno, sobre o ovo quebrado por fora e por dentro, que todos viram.
Agosto e setembro de 2026: recomendações de candidatos colocam o X sob questionamento
Para as eleições brasileiras, o X anunciou um filtro para impedir determinadas recomendações de candidatos. Levantamento do Sleeping Giants Brasil, porém, identificou falhas na aplicação da medida.
Nossa matéria fez com que a plataforma cumprisse a regra e, após o seu cumprimento, identificamos o descumprimento na seção “Quem seguir”. Com outra matéria e sua repercussão, a plataforma consertou e parou de recomendar candidatos.
Foram quatro anos de muita luta para preservar nem que fosse um pouco dessa plataforma tão querida pelos twitteiros. Foi nela que o Sleeping Giants Brasil nasceu e teve um crescimento estrondoso. Foi nela que os usuários tiveram a noite da morte e ressuscitamento do perfil de humor satírico, Coronel Siqueira, a busca por um verificado do legadão, a guerra de memes do brasil contra a guiana brasileira, a Luiza, que está no Canadá, e até mesmo as inúmeras pegadinhas do Cid do Não Salvo, foi nela que os memes nasceram e morreram, a plataforma que criou um estilo de vida, que criou famosos e cancelamentos.
Uma plataforma amada por muitos que, infelizmente, foi cooptada e destruída pela ganância de um único homem. Mas ela segue viva, e nós continuaremos utilizando-a para criticar, seja o X ou qualquer outra big tech.
Edição por Ana D’Angelo
Imagem ilustrativa produzida por Claudio Franchinni