No dia 7 de janeiro de 2025, Mark Zuckerberg, até então CEO e um dos fundadores da Meta, publicou um anúncio em seu Instagram pessoal. A mensagem aos mais de 3 bilhões de usuários da Meta dizia que a empresa eliminaria a checagem de fatos e trocaria o modelo de moderação pela ferramenta “Notas da Comunidade”, semelhante à utilizada no X, antigo Twitter, comprado por Elon Musk.
Uma das frases icônicas desse discurso foi: “Vamos trabalhar com o presidente Trump para resistir a governos ao redor do mundo que estão perseguindo empresas americanas e pressionando por mais censura.”
Ali vimos, pela primeira vez na história, uma virada na lógica do discurso das big techs, que antes tentavam passar um ar de moderação e imparcialidade. Mostraram estar aliadas à extrema direita e a Trump.
A onda das big techs aliadas a Trump se confirmou quando pudemos ver a foto dos principais CEOs das big techs em um espaço reservado na posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Nos meses seguintes, pudemos ver os ventos da mudança chegarem com ondas de desinformação e ódio nas redes.
Foi então que chegamos a 2026, ano de eleição, tido pelo campo progressista como o mais importante dos últimos tempos.
De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva; do outro, Flávio Bolsonaro, filho de um condenado por golpe de Estado, apoiado por Trump.
Com esse jogo posto, sabíamos de antemão que não seria, por parte das big techs, um jogo justo, e isso se concretizou nos meses de campanha.
Meta, não se meta
O que antes parecia apenas uma suspeita passou a ser investigado por organizações da sociedade civil, pesquisadores e veículos de imprensa durante a campanha eleitoral brasileira de 2026. As denúncias de interferência das big techs nas eleições ganharam força com uma série de levantamentos que apontaram irregularidades na distribuição de anúncios, na moderação de conteúdos e no funcionamento de ferramentas de inteligência artificial.
Em outubro de 2026, o Sleeping Giants publica o dossiê “Meta, não se meta nas nossas eleições”, reunindo 41 registros documentais, entre investigações, testes, reportagens, denúncias, procedimentos institucionais e posicionamentos oficiais da empresa.
O documento sistematizou evidências de quatro mecanismos pelos quais a Meta poderia afetar a disputa eleitoral: a publicidade política paga, a inteligência artificial generativa, os sistemas de recomendação algorítmica e as restrições de conteúdos e perfis.
Os primeiros dados do dossiê começam com dois testes realizados pela Anistia Internacional e pela organização global Eko. No primeiro levantamento, realizado em 25 de agosto, já no período de campanha eleitoral, a Meta aprovou oito dos 15 anúncios submetidos, que incluíam peças com desinformação eleitoral e pedidos de intervenção militar. No segundo teste, realizado em 13 e 16 de setembro, 13 dos 15 anúncios com conteúdos produzidos por inteligência artificial, incluindo mensagens golpistas, passaram pelos filtros da plataforma. Os anúncios foram cancelados antes da veiculação pública.
A Eko produziu, algumas semanas depois, no dia 30 de setembro, outro levantamento que mostrou 26 contas que estavam impulsionando, de fora do Brasil, conteúdos com IA contra os candidatos Lula e Flávio Bolsonaro.
Outro levantamento, publicado em 6 de outubro e realizado pelo NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou 568 anúncios irregulares durante o fim de semana do primeiro turno, sendo que 325 continuavam ativos no próprio dia da votação, em 4 de outubro. Entre eles, seis simulavam comunicações da Justiça Eleitoral para divulgar uma falsa possibilidade de votação remota.
Censura
As denúncias não se limitaram à publicidade. Um levantamento da CTRL+Z, divulgado pela Agência Pública no dia 15 de outubro, reuniu mais de mil relatos de restrições, remoções e bloqueios de perfis nas plataformas da Meta. Entre as punições cujo conteúdo tinha orientação política identificável, 90% atingiram publicações progressistas ou relacionadas à campanha de Lula.
A inteligência artificial da Meta também entrou na mira das investigações. Testes realizados durante a campanha por veículos como BBC, G1 e O Globo identificaram diferenças no comportamento da Meta AI diante de pedidos semelhantes envolvendo os dois candidatos à Presidência. Em um dos episódios documentados, a ferramenta permitia gerar imagens relacionadas a Flávio Bolsonaro com o número 22, mas recusava solicitações equivalentes relacionadas a Lula.
A repercussão das denúncias chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em 19 de outubro, a Justiça Eleitoral, a pedido da campanha de Lula, deu 24 horas para que a Meta comprovasse o tratamento igualitário entre as candidaturas nas ferramentas de inteligência artificial e nos sistemas de recomendação, sob pena de multa diária de R$ 1 milhão.
A empresa negou qualquer favorecimento político e atribuiu os episódios denunciados a “falhas técnicas”. As investigações reunidas no dossiê, embora documentem irregularidades e comportamentos assimétricos, não permitem, isoladamente, comprovar uma intenção deliberada de interferir no resultado das eleições.
Isso porque a forma como os mecanismos das redes são estruturados não permite sequer que a Justiça entenda como funcionam seus algoritmos.
Vivemos um limbo, impulsionado pela falta de regulação.
Dossiê Nikolas Ferreira
No dia 15 de outubro, o Sleeping Giants Brasil publicou um estudo mostrando a anomalia de engajamento do deputado federal Nikolas Ferreira.
O levantamento identificou um desempenho desproporcional nos vídeos publicados pelo deputado durante o período eleitoral. Apenas dez publicações acumularam 410,5 milhões de visualizações, superando o alcance de perfis com bases de seguidores significativamente maiores, como os das cantoras Selena Gomes e Beyoncé, cujos números de seguidores superavam o do deputado em mais de 1.000%.
A mediana de visualizações dos vídeos foi 17,2 vezes superior à registrada entre deputados federais, 29,3 vezes maior que a dos maiores perfis brasileiros e 33,7 vezes acima da dos maiores perfis mundiais analisados.
Os resultados embasaram questionamentos apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre possíveis disparidades no tratamento de perfis pelas plataformas digitais. O desempenho das publicações também foi citado pela campanha de Lula em uma petição encaminhada à Justiça Eleitoral.
A sociedade civil foi às ruas

A mobilização, porém, não ficou restrita aos documentos e aos tribunais.
No dia da publicação do dossiê, em 19 de outubro, centenas de manifestantes se reuniram em frente à sede da Meta, na Avenida Faria Lima, em São Paulo, para protestar contra a suposta interferência da empresa nas eleições brasileiras.
O ato, chamado “Meta, não se meta”, foi liderado por movimentos sociais e organizações da sociedade civil, entre elas Sleeping Giants Brasil, CTRL+Z, Artigo 19, Diracom, Código Não Binário e Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação.
Os manifestantes cobraram transparência sobre os sistemas de recomendação, o funcionamento da moderação e o tratamento dispensado aos conteúdos políticos. Representantes das organizações tentaram entregar um documento à empresa, mas, segundo os organizadores, não conseguiram protocolá-lo presencialmente.
A manifestação representou mais uma frente de pressão: além das denúncias formais e das pesquisas, a sociedade civil levou para as ruas o debate sobre o poder das plataformas privadas sobre o processo democrático brasileiro.
Para Humberto Ribeiro, cofundador e diretor jurídico do Sleeping Giants Brasil, a atuação conjunta das organizações foi fundamental para expor as falhas das plataformas durante as eleições.
“Nenhum outro setor da sociedade brasileira foi tão eficaz na produção de evidências que demonstraram as distorções, vieses e falhas das plataformas no debate eleitoral”, afirma.
Segundo Ribeiro, mais de 50 produções independentes foram mapeadas pelo Sleeping Giants Brasil durante o período eleitoral, contribuindo para fundamentar ações judiciais e investigações eleitorais.
A importância dessa mobilização também é destacada por Júlia Neiva, coordenadora do programa de Defesa dos Direitos Socioambientais da Conectas, que ressalta o papel da sociedade civil na cobrança por transparência e tratamento igualitário nas plataformas digitais.
“Durante o período eleitoral, foi fundamental haver pressão da sociedade civil para que as autoridades cobrassem as big techs, como a Meta, sobre disparidade, restrições de alcance e engajamento das contas relacionadas. Também é importante lembrar que as articulações serviram para destacar a importância de compreendermos o espaço digital enquanto uma esfera de disputa de opinião pública e de necessária democratização do acesso. Isso não deve estar condicionado por interesses geopolíticos alheios às regras eleitorais do país.”
Nosso Digital: como evitar que a história se repita?
Se as eleições de 2026 trouxeram à tona os riscos da concentração de poder das big techs, uma pergunta permanece: o que fazer para impedir que os mesmos problemas se repitam nos próximos processos democráticos?
Parte da resposta pode estar na articulação da sociedade civil para influenciar regras e políticas públicas capazes de reduzir a dependência tecnológica do Brasil e garantir maior responsabilização das plataformas.
É nesse contexto que surge o Nosso Digital, uma iniciativa construída coletivamente por 64 organizações da sociedade civil, com a participação de mais de 100 pessoas, para formular propostas voltadas ao futuro do ambiente digital brasileiro.
Lançada em outubro de 2026, a agenda reúne 13 bandeiras que abrangem temas como governança digital, liberdade de expressão, integridade da informação, privacidade, segurança, inclusão digital e soberania tecnológica.
A proposta é contribuir para a formulação de políticas públicas entre 2026 e 2030, colocando os direitos da população, a democracia e o interesse público no centro das decisões sobre tecnologia.
Entre as propostas estão a criação de mecanismos que obriguem as plataformas a explicarem seus critérios de moderação de conteúdo, dar maior transparência ao uso de dados pessoais e ao direcionamento de anúncios, além de ampliar a responsabilização das empresas pelos danos causados por seus sistemas algorítmicos.
A agenda também defende o avanço da regulamentação da inteligência artificial no Brasil, o incentivo ao desenvolvimento de tecnologias nacionais, incluindo modelos de IA abertos e auditáveis, e a criação de uma instância permanente de coordenação das políticas digitais, com participação da sociedade civil.
Para Júlia Neiva, da Conectas, a experiência das eleições brasileiras reforça a necessidade de ampliar os mecanismos de transparência e responsabilização das plataformas, reconhecendo a influência dessas empresas sobre o debate público e os processos democráticos.
“A experiência brasileira demonstra que a integridade eleitoral não depende apenas das instituições tradicionais. As plataformas digitais exercem influência direta sobre a circulação de informações e a participação política, o que torna sua transparência e a responsabilização elementos absolutamente essenciais para a proteção da democracia e dos direitos humanos.”
Edição: Ana D’Angelo
Designer: Claudio Franchinni