O jogo que você nunca ganha – a realidade das bets sem filtro e sem influencer

Plataforma criada por alunos do Senac calcula os danos das bets, tem simulador de perdas e quizz de dependência

 

As chamadas bets, ou casas de apostas, vêm se tornando uma questão cada vez mais preocupante na vida dos brasileiros. A partir dessa percepção, a professora Gabriela Silveira, responsável pela disciplina de extensão “Educação Digital”, do curso de graduação tecnológica em Análise e Desenvolvimento de Sistemas do Senac RJ, criou, em parceria com os alunos, a plataforma OddZero.

O projeto apresenta os impactos negativos das apostas, explica o funcionamento das plataformas, dos algoritmos e da matemática por trás dos jogos, além de reunir histórias reais e oferecer ferramentas de prevenção, conscientização e ajuda aos usuários.

 

Como tudo começou

 A ideia surgiu durante uma conversa da turma, enquanto os estudantes discutiam iniciativas que poderiam ser relevantes para a sociedade. Naquele momento, as propagandas de apostas estavam presentes em diferentes espaços, como o Carnaval e o Big Brother Brasil, o que acabou levando o grupo a escolher o tema.

Depois de pesquisas e debates, os alunos dividiram as tarefas e decidiram desenvolver um site de fácil acesso, com informações sobre os riscos relacionados às bets. Por serem estudantes da área de tecnologia, a criação de uma plataforma digital acabou sendo o caminho mais natural.

A intenção era produzir um conteúdo que chamasse a atenção para os prejuízos das apostas, mas que também apresentasse soluções e relatos reais. O principal incômodo dos estudantes era a forma como essas plataformas se apresentam como facilitadoras e prometem ganhos rápidos e fáceis, apesar da complexidade e dos riscos envolvidos.

 

“Elas vêm disfarçadas de coisas interessantes, só que, na verdade, são muito maléficas, porque causam dependência. No final, você está perdendo seu dinheiro, sua saúde mental. Às vezes, fica com vergonha de contar o quanto perdeu e isso se torna um vício”, comenta Gabriela.

 

A aluna Beatriz Fraga, que também participou da criação do projeto, chama atenção para a promessa de ganhos divulgada pelas plataformas e por influenciadores digitais.

 

“A ilusão de ‘renda extra’ sempre me deixou desconfortável. Como é extra se você tem a possibilidade de perder o que já tinha e mais? Além disso, ver os influencers ostentando ganhos falsos usando essas contas fakes é revoltante. Vendem a ideia de que você pode ‘vencer’ se tiver sorte ou estratégia, mas aquilo não passa de um código pré-programado para a casa lucrar. Eles vendem sorte, mas entregam matemática.”

 

A pesquisa

 Durante a pesquisa, os alunos analisaram as estratégias das plataformas para manter os usuários apostando. Entre os conceitos estudados estão o ‘’RTP’’, sigla para Return to Player, que indica o percentual teórico do dinheiro apostado que retorna aos jogadores, e o chamado ‘’near-miss’’, que é a sensação de “quase vitória”. Beatriz explica:

 

“Descobrimos que o design, as cores, o tempo de resposta e até as animações de ‘quase vitória’ não estão ali por acaso. O aplicativo é desenvolvido por equipes gigantes de UX e psicólogos para estimular a dopamina no cérebro e fazer com que você tenha a sensação de estar quase ganhando, só para continuar jogando”.

 

Muitos usuários acreditam que perderam dinheiro por azar, por causa de um dia ruim ou porque erraram determinado palpite. A proposta do projeto é mostrar que, ao longo do tempo, as plataformas são matematicamente estruturadas para garantir lucro às casas de apostas. Ou seja, no fim das contas, o usuário sempre vai acabar perdendo.

 

O OddZero

 

Para desenvolver o projeto, a professora dividiu a turma em algumas áreas, e cada grupo ficou responsável pela pesquisa de um tema. A plataforma reúne conteúdos informativos sobre as bets, relatos de casos reais, ferramentas de ajuda, auto-avaliação, simulador de perdas e o BetBlock, uma extensão criada para bloquear o acesso a sites de apostas.

Um dos principais desafios foi encontrar formas de alcançar pessoas que não se percebem em uma situação de risco. A pesquisa realizada pela turma mostrou que parte dos usuários enxerga as apostas apenas como diversão e não percebe o dinheiro perdido ou os possíveis impactos sobre a saúde.

A influência de personalidades conhecidas também foi considerada no desenvolvimento do projeto. Quando pessoas admiradas apresentam as apostas como uma maneira fácil de obter retorno financeiro, os usuários podem acreditar que também alcançarão os mesmos resultados. Por isso, uma das seções da plataforma mostra quem promove esse tipo de conteúdo e quais benefícios essas pessoas podem receber.

 

“É um assunto muito delicado, né? A gente está falando do dinheiro das pessoas, de saúde e de usuários que, às vezes, não veem isso como um problema. Então, como é que a gente pode impactar uma pessoa que não está vendo isso como um problema?’’, questiona Gabriela.

 

Solucionando desafios

 

A partir desse diagnóstico, a turma começou a desenvolver possíveis soluções. Uma delas foi um quiz de auto-avaliação, em que o usuário pode identificar sinais de dependência em apostas. Outra ferramenta criada foi o simulador de perdas. Nele, a pessoa informa quanto ganha, quais contas precisa pagar e quanto costuma gastar com apostas por dia, semana ou mês. A ferramenta calcula e mostra outras possibilidades de uso daquele dinheiro, como pagar uma conta, fazer uma viagem ou ir ao cinema.

 

“Eles não entendem que, a longo prazo, a perda é uma certeza matemática. O nosso simulador dá a oportunidade do usuário enxergar, de maneira muito mais impactante, o prejuízo real que ele está tendo. O quiz também é mais uma maneira de a pessoa entender se já chegou a um ponto em que precisa de ajuda e se aquilo já se tornou um vício”, diz Beatriz.

 

Outro desafio foi traduzir conceitos complexos de estatística, psicologia e programação em uma interface que pudesse ser compreendida por diferentes públicos. Como a pesquisa feita pelo grupo reuniu uma grande quantidade de informações, os alunos também temiam que a plataforma ficasse com uma aparência excessivamente institucional, com textos longos e pouco atrativos.

A solução foi adotar um visual mais chamativo e usar conceitos de experiência do usuário para atrair a atenção, mas com um objetivo diferente daquele empregado pelas bets: informar em vez de enganar.

Segundo Gabriela, a possibilidade de compartilhamento também foi considerada durante a criação da plataforma.

 

“Uma das coisas que a gente percebeu é que talvez esse usuário não acesse a nossa plataforma, mas, se outra pessoa preocupada com ele chegar à plataforma, seria interessante ela poder compartilhar esses conteúdos com quem quisesse”.

 

Com base nessa percepção, a turma desenvolveu ferramentas que podem ser compartilhadas pelo WhatsApp. O resultado do simulador, os casos reais e as informações sobre formas de ajuda podem ser enviados para pessoas que talvez não procurassem espontaneamente a plataforma.

Todas as funcionalidades foram pensadas para permitir esse compartilhamento. A ideia é que familiares e amigos possam enviar o conteúdo a pessoas próximas e estimular uma reflexão sobre os efeitos das apostas.

 

O futuro da plataforma

 

“Desenvolver o OddZero fez a gente respeitar ainda mais o poder da programação, porque o código pode ser usado tanto para prender e adoecer as pessoas quanto para libertar e informar, que é o que escolhemos fazer.”, afirma Beatriz.

A plataforma ainda está em versão beta, e algumas ferramentas não foram finalizadas. Entre as ferramentas já desenvolvidas está o BetBlock, uma extensão para o Google Chrome que bloqueia sites de apostas.

Apesar de já funcionar, o recurso ainda não está disponível na loja do navegador devido aos custos necessários para sua publicação. O projeto já foi apresentado por comunidades como Zona de Propulsão, Estudantes Ninja e Tecnologia do Bem. A professora também buscou outros canais no Instagram para divulgar a iniciativa.

A equipe também tentou estabelecer contato com a Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, para apresentar o projeto e avaliar o interesse em uma possível parceria.

 

“Estamos aí na luta para implementar, não pensando em monetizar, a princípio, mas sim para manter e implementar tudo o que a gente criou, pesquisou e trouxe como possíveis soluções para essa problemática das bets”, conclui Gabriela.

 

Matéria feita para o Sleeping Giants pela colaboradora Maria Flor, jornalista 

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