VazaBigTech – um espaço seguro para denúncias sobre as gigantes da tecnologia

Este texto de hoje foi escrito especialmente para quem trabalha em uma big tech. Mas também para quem conhece alguém que trabalha. E para quem simplesmente quer entender o que está acontecendo por trás das plataformas digitais que organizam boa parte da nossa vida pública.

Eu conheço esse ambiente por dentro. Trabalhei em uma dessas gigantes da tecnologia, e sei o quanto pode ser desconfortável habitar essa contradição: fazer parte de uma estrutura de poder imenso, em tempos em que os danos causados por esse poder são cada vez mais mais graves, refletindo-se inclusive na estrutura interna.

Esta semana, a empresa onde eu trabalhei anunciou o corte de mais 8.000 postos de trabalho. A justificativa oficial: seus investimentos crescentes em inteligência artificial. Ao mesmo tempo, a mesma empresa implementou um software que vai monitorar até mesmo os movimentos de mouse de seus funcionários. Os dados coletados, segundo o que se sabe, vão alimentar o treinamento das IAs que podem, no futuro, ocupar esses mesmos postos. As pessoas são usadas para construir aquilo que vai substituí-las. É difícil encontrar uma palavra melhor do que cruel para descrever essa lógica.

Quando alguém toma coragem e fala, o mundo muda

A história recente mostra que algumas das transformações mais significativas no modo como entendemos as big techs não vieram de reguladores, nem de pesquisadores externos. Vieram de pessoas que estavam dentro das empresas.

Em 2018, o escândalo da Cambridge Analytica expôs como os dados pessoais de cerca de 87 milhões de usuários do Facebook foram coletados sem consentimento e usados para influenciar processos eleitorais — entre eles, a eleição de Donald Trump em 2016 e o referendo do Brexit no Reino Unido. As revelações só foram possíveis porque um pesquisador que teve acesso aos dados e uma ex-funcionária da empresa decidiram falar. Sem esses relatos, a operação permaneceria invisível.

Três anos depois, em 2021, a ex-executiva da Meta, Frances Haugen, entregou ao Congresso americano e a um consórcio internacional de jornalistas milhares de páginas de documentos internos do Facebook. Os Facebook Papers revelaram que a empresa sabia — com base em dados próprios — que o Instagram causava danos sérios à saúde mental de adolescentes, especialmente meninas. Que seus algoritmos favoreciam conteúdo inflamatório e desinformação. Que decisões de moderação eram sistematicamente adiadas por interesses comerciais. A empresa tinha as evidências. E escolheu não agir. Os documentos internos provaram isso.

Esses dois casos mudaram leis, desencadearam investigações em múltiplos países e redefiniram o debate global sobre regulação de plataformas. Nenhum deles teria existido sem pessoas de dentro da máquina dispostas a romper o silêncio.

É dessa tradição que nasce a VazaBigTech.

O projeto é uma iniciativa da CTRL+Z, organização que fundei depois de deixar o setor de tecnologia, em parceria com o Sleeping Giants Brasil, onde atuo como conselheira e colunista. A proposta é criar um canal seguro para que funcionários de empresas de tecnologia, suas terceirizadas ou organizações parceiras possam compartilhar relatos sobre o que acontece lá dentro, sem precisarem se identificar.

O setor de big tech é opaco por design. Muito pouco do que determina como as plataformas digitais funcionam — as decisões sobre moderação de conteúdo, algoritmos, monetização, impulsionamento, distribuição — chega ao conhecimento público de forma espontânea. Para o Brasil, essa opacidade tem um custo específico: raramente sabemos como essas políticas globais são adaptadas para a nossa realidade, quais conteúdos são priorizados ou suprimidos aqui, e com que critérios.

A VazaBigTech foi pensada para mudar isso. A plataforma pode ser acessada via Tor, garantindo navegação anonimizada. É possível enviar relatos, denúncias e documentos sem qualquer necessidade de identificação. O material recebido alimenta o trabalho do jornalismo investigativo, que depende exatamente desse tipo de fonte para continuar expondo como essas empresas operam.

Se você tem algo a compartilhar — uma prática interna questionável, uma decisão que não deveria ficar no esquecimento, um documento que o público merece conhecer —, acesse pelo seu dispositivo pessoal: www.vazabigtech.org. Leia as orientações de segurança e conheça melhor o nosso projeto.

Visão geral da privacidade

Este site usa cookies e ferramentas para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis. Confira nossa política de privacidade.