Curso de deepfake usando imagem de candidatos à presidência ensina como remover a marca d´água da IA

Alguns módulos ensinam a fazer prompts atacando um candidato à Presidência e favorecendo outro, o que também é vedado pela legislação eleitoral

Um curso online hospedado na plataforma Kiwify ensina, em um de seus módulos, como remover a marca d’água da Sora 2, ferramenta de inteligência artificial da OpenAI usada para geração de vídeos. A identificação de conteúdos políticos produzidos ou manipulados por IA é uma das exigências previstas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as eleições deste ano e está prevista nos planos de conformidade eleitoral das big techs.

O curso, divulgado como apolítico, está disponível mediante pagamento de R$ 167 e tem mais de 90 módulos. Alguns deles ensinam a fazer deepfakes de candidatos à presidência como Lula e Flávio Bolsonaro.

O curso foi divulgado por diversas contas ligadas à produção de conteúdo político de extrema direita, entre elas a página Narrativas Curiosas, que foi alvo de medidas da Justiça Eleitoral, e em uma conta atribuída a Léo Índio, sobrinho do ex-presidente Jair Bolsonaro, além de outras páginas grandes que divulgavam os conteúdos por meio dos collabs do Instagram. O site oficial do curso informa que mais de 3 mil pessoas já o teriam adquirido.

A conta Narrativas Curiosas está presente no YouTube e TikTok, onde o link do curso problemático segue na bio.

A reportagem se matriculou no treinamento para verificar seu conteúdo. Em uma das aulas, o professor apresenta uma ferramenta gratuita capaz de remover a marca d’água inserida nos vídeos produzidos pela Sora 2.

A aula, intitulada “APRENDA A REMOVER A MARCA D’ÁGUA GRATUITAMENTE DOS VÍDEOS DO SORA 2”, apresentada por Matheus Delalibera, ensina a retirar a identificação visual do conteúdo gerado pela ferramenta da OpenAI, sem fazer ressalvas sobre possíveis implicações legais ou eleitorais da prática.

No vídeo, o instrutor demonstra o uso da ferramenta online Magic Eraser para remover a marcação do vídeo. A reportagem entrou em contato com a empresa responsável pela ferramenta, mas não recebeu resposta até a data da publicação desse texto.

É importante destacar que, especificamente nessa aula, não há menção a candidatos ou à produção de conteúdo político. A aula, no entanto, faz parte de um treinamento que também reúne conteúdos voltados à produção de vídeos políticos.

A Kiwify, responsável por hospedar o curso, após ser contatada pela reportagem, informou  que os módulos considerados problemáticos haviam sido removidos por violarem as regras da plataforma. Segundo a empresa, o conteúdo também estaria em desacordo com as regras eleitorais. No entanto, a reportagem voltou a acessar o curso e constatou que os módulos mencionados continuavam disponíveis.

Outra possível irregularidade encontrada no treinamento aparece no módulo “Criando Vídeos Virais com o Bolsonaro e o Lula”. Nesse módulo, há três aulas com exemplos de prompts direcionados à produção de conteúdos que atacam o presidente e candidato Luiz Inácio Lula da Silva e favorecem o candidato Flávio Bolsonaro.

 

Nas aulas, Matheus Delalibera utiliza a página “Narrativas Curiosas” como exemplo para a produção dos conteúdos, a mesma página que foi derrubada pela Justiça Eleitoral.

A irregularidade se torna mais problemática se observado que esta é a primeira campanha eleitoral com uso intenso de ferramentas de IA generativa e diversos monitoramentos indicam que a identificação do conteúdo sintético ainda é minoria.  Um levantamento do projeto VigIA, da Agência Lupa, analisou 314 conteúdos feitos com IA publicados nos 11 primeiros dias da campanha eleitoral oficial e identificou que 64% deles não seguiam as regras de transparência estabelecidas pelo TSE. O levantamento foi publicado em 11 de setembro.

 

A Resolução TSE nº 23.610/2019, atualizada em 2026, exige identificação explícita de conteúdos eleitorais produzidos ou alterados por IA, incluindo a tecnologia utilizada.

A norma também proíbe conteúdos sintéticos falsos ou descontextualizados com potencial de afetar o equilíbrio das eleições, além de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas.

“A remoção da marca d’água ou de outros elementos de identificação em material sintético de campanha político-partidária pode caracterizar divulgação de propaganda em desacordo com as regras de rotulagem do TSE.

Nesses casos, o conteúdo pode ser considerado ilícito eleitoral, sujeito a remoção, multa e outras sanções”, analisa Camila Nasci, coordenadora do Jurídico do Sleeping Giants.

Rede de perfis é citada em representação eleitoral

Em julho deste ano, a Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) protocolou uma representação no TSE na qual aponta a atuação coordenada de uma rede de perfis no Instagram para disseminar conteúdos sintéticos e difamatórios contra o presidente Lula, a primeira-dama Janja Lula da Silva e integrantes do Supremo Tribunal Federal.

Na petição, a federação acusa os perfis de apresentarem “comportamento inautêntico coordenado” e afirma que os vídeos não surgiam de maneira orgânica. Segundo a representação, os conteúdos eram produzidos por contas que utilizavam intensamente a ferramenta collab do Instagram, que permite que até cinco contas compartilhem o mesmo conteúdo, alcançando milhões de visualizações e sendo posteriormente amplificados por parlamentares e outras figuras públicas. A ação também aponta a existência de uma estratégia de monetização relacionada à produção dos conteúdos.

Entre as contas citadas na representação está a “Narrativas Curiosas” (@narrativascuriosastv), que reunia centenas de milhares de seguidores e era apontada como um dos polos de distribuição dos vídeos.

Após as denúncias e medidas contra algumas das páginas mencionadas na representação, novos perfis relacionados ao conteúdo continuaram ativos em diferentes plataformas. A atual conta “Narrativas Curiosas” no Instagram reúne 10 mil seguidores, enquanto perfis em plataformas como TikTok e YouTube continuam publicando montagens políticas e divulgando o treinamento.


Edição e co-autora da reportagem: Ana D’Angelo

Design: Daniel Ferreira

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