María Julia Giménez analisa como essas organizações surgiram e se espalharam pelo mundo
Quando se fala em política, a atenção costuma se voltar para governos, parlamentos e partidos. No entanto, a formulação de políticas públicas e a definição dos rumos de um país também são influenciadas por uma ampla rede de organizações e grupos de interesse. Entre esses atores destacam-se as think tanks, ou “laboratórios de ideias”.
Segundo a pesquisadora, María Julia Giménez, essas estruturas ganharam destaque a partir do final da década de 1970, tornando-se importantes espaços de produção e difusão de agendas políticas e econômicas. Em seu livro “Um Atlântico Liberal: Think Tanks, Vargas Llosa e a Ofensiva de Direita na América Latina”, publicado em 2024 pela Editora da Unicamp, ela analisa a atuação da Fundación Internacional para la Libertad (FIL), organização criada pelo escritor Mario Vargas Llosa, que articula entidades da Espanha, dos Estados Unidos e da América Latina em torno da defesa do liberalismo. Atualmente, Giménez também investiga a rede Atlas, fundada na Inglaterra e presente em diversos países, incluindo os Estados Unidos e o Brasil, onde contribui para a circulação de ideias ultraliberais.
Os think tanks, indica a autora, são uma forma política que podem se articular em diferentes setores da sociedade “como parasitas”, diz ela. Embora não exclusivamente de extrema-direita, as organizações funcionam melhor para o neoliberalismo, ao transformar ideias em mercadorias.
Em entrevista ao Sleeping Giants Brasil, Giménez explica como essas organizações se estruturam e seu papel na expansão da agenda neoliberal. Confira:
O que são think thanks?
María Julia: Eu entendo as think thanks como mais uma forma de organização política. Em termos mais teóricos eu diria que é um aparelho privado de hegemonia. E para além de uma ideologia específica, independente do programa político que esteja divulgando, ela articula uma série de campos que são fronteira.
Quer dizer, elas de alguma forma vão parasitando um pouco do capital político, outro pouco do capital acadêmico, outro pouco do capital dos meios de comunicação e vão juntando. Então, não são necessariamente um veículo de comunicação, mas atuam vinculados e têm práticas da comunicação. Elas não são, né, um partido político, mas claro, tem vínculo com o partido político, tem vínculo como organização política e sua forma de organização.
Qual o papel dessas organizações para a expansão do neoliberalismo?
María Julia: Por si só a ideia de um think tank não necessariamente é uma coisa de extrema direita ou de ou neoliberal, mas há uma grande afinidade dessas dessas ideologias com essa estrutura, porque no confronto de ideias, as think tanks têm a ver com uma lógica empresarial, do mercado das ideias. Então, por isso, de alguma forma, elas respondem na defesa específica do liberalismo. Ele é um tipo de aparelho que funciona muito bem, poderíamos dizer para a racionalidade neoliberal.
Como elas surgiram?
María Julia: É uma forma de organização que surge no correr do século 20 na Europa e em paralelo também nos Estados Unidos e se vai desenvolvendo ao longo do mundo. Ela é resultado de uma série de discussões que vem no período, poderíamos dizer, dentre guerras, entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial na Europa.
Em um primeiro momento muito vinculado a um programa de governo, né, num conflito específico bélico, para o desenvolvimento, né, de uma série de políticas públicas, em um processo de ofensiva conservadora, como foi a década de 1970. Então se começa a desenvolver uma série de valores, de princípios, né, uma ideologia liberal muito específica, de choque de ideias, fomentado pelo campo liberal fortemente, como formas de fazer frente aos dois modelos de estado que se estavam desenvolvendo eh produto na primeira Guerra Mundial, que é o estado que inicia com a Revolução Russa, o estado revolucionário.
Então, se começa a ter uma série de discussões importantes no que se vai conhecer posteriormente como neoliberalismo. Nessas discussões, se discute fortemente o lugar do intelectual.
E ao longo dos anos 50, 60, muito no embate contra o estado soviético, na Grã Bretanha o Antony Fitch cria a grande rede Atlas.
O que é essa rede e como ela se financia?
María Julia: Inicialmente surge como um instituto de assuntos econômicos na Inglaterra que vai ser chave na vitória de Margaret Thatcher na virada dos anos 80.
Ele era veterano de guerra e com essa grana ele tinha investido em um dos primeiros produtores de aves em grande escala. Então ele estava muito vinculado com o sistema agroalimentar e a importância que esses setores do capital estão vinculados na disputa de ideias.
É uma associação que parece desconexa. Mas o sistema agroalimentar é fundamental para discutir a terra, discutir mercado, discutir modos de alimentação, de vida, etc. Um monte de coisa. Por isso, ele não estava, ele não estava necessariamente discutindo o regime agroalimentar, ele estava discutindo a política na Inglaterra e o choque contra o laborismo inglês através da Atlas Network.
E a partir daí, ele dá uma unidade e direção internacional, não como um controle de marionetes, mas ela sistematiza a forma de atuar de institutos ultraliberais. A Atlas realiza formação, articulação, fomento e promoção de instituições que atuam internacionalmente.
E como isso chega na América?
María Julia: Na América Latina chega com muita força nos 80 e podemos dizer que isso tem ondas contínuas até hoje, em especial em resposta à ascensão de regimes progressistas nos anos 2000 no continente.
No primeiro momento, eles não encontravam muita entrada nas universidades e então foram formando vínculos com certos professores, e começaram a se inserir principalmente nas universidades privadas. No caso de Argentina, na SEADE, Serviço de Educação a Distância, no caso de Guatemala, a Universidad Francisco Marroquín, no caso do Chile, na Universidad Católica de Chile. Assim foram formando quadros que depois passaram a compor ministérios, durante a ditadura do Pinochet, por exemplo.
E quem financia esses grupos?
María Julia: Na maioria das vezes são empresários. Essas estruturas vão cooptando eles dentro de conselhos empresariais para solicitar fundos e também para ampliar sua influência. No sentido de que o empresário é aquele cara que desenvolve o país através de uma empresa com milhares de operários em seu entorno.
Mas isso não significa que o vínculo seja direto e que essas organizações vão estar defendendo abertamente os interesses de uma empresa específica. Em alguns momentos pode até ser conflitante com os interesses de alguns grupos, mas é um vínculo político, de formação, de estar constantemente em diálogo com setores empresariais justamente para pedir ajudas financeiras.
E como eles entram na política?
María Julia: Assim como no meio empresarial isso se dá em dois casos. Tem algumas think tanks que são criadas a partir de partidos políticos e por outro lado há think tanks que se tornam partidos, como no caso do Vox na Espanha. Funciona como uma porta giratória em que alguns integrantes de think tanks ingressam na política partidária no lado da entrada e do lado da saída cooptam políticos que já fazem parte de partidos.
Porque a política é mais volátil. O político vai ser eleito e depois de um tempo acaba saindo, mas através de think tanks eles conseguem fazer com que uma ideia permaneça por mais tempo. É melhor incidir nas ideias evitando assim entrar no sistema que já está caindo na descrença.
Quando se vincula muito a um projeto a um projeto político partidário e ele acaba meio que se incinerando, assim, tanto seja porque perde os quadros, seja por um limite real da democracia liberal que precisa de uma maioria de consenso.
Então assim eles conseguem fazer uma distinção entre aquele tipo de estrutura que vai participar do sistema político e aquela que vai ficar no campo apenas do mercado de ideias, atuando através de empresas, universidades e hoje em dia de influenciadores.
Já que você trouxe esse assunto, queria entender também como essas think tanks atuam dentro das redes sociais.
María Julia: Elas vêm de um momento que é anterior às redes, não nascem como think tanks digitais, então a atuação nas redes tem muito mais a ver com os vínculos que eles fazem.
Assim eles não precisam eles não precisam ter um programa de TV para estarem na TV, não precisam ser um partido para estar em um partido, não precisam ser uma empresa, para estar dentro delas e assim por diante, eles também não precisam ter essa presença direta na internet, eles atuam através de contatos. E assim eles montam essa estratégia de sobrevivência que perdura do analógico ao digital e do acadêmico ao empresaria
A entrevista é uma colaboração para o SGBR de Ethel Rudnitzki, repórter especializada no combate à desinformação e checagem de fatos. Formada pela Universidade de São Paulo, fez parte das redações do Aos Fatos e da Agência Pública.