IA nas eleições: quais as novidades e os impactos sobre o debate público

Imagem gerada por IA

Durante a campanha eleitoral deste ano vamos presenciar a IA generativa acessível e nas mãos de todos os brasileiros. Seus impactos ainda são incertos, mas de uma coisa sabemos: a IA das eleições de 2022 não é a IA do pleito de 2026 e o que permanece é a ausência de uma regulação robusta sobre o uso da tecnologia.  

Um observatório criado pelas organizações Aláfia Lab e Data Privacy Brasil monitora o uso das IAs com fins políticos no debate público brasileiro. Conforme um dos coordenadores do projeto, Matheus Soares, que também é coordenador de conteúdo do Aláfia Lab, o projeto busca identificar, sistematizar e analisar como a tecnologia pode interferir direta ou indiretamente nos processos eleitorais. 

“Mapeamos, por exemplo, conteúdos sintéticos diversos, como deepfakes publicados por políticos, partidos ou pelos próprios usuários, desde que representem figuras ou temas políticos e eleitorais.” 

Segundo informações do observatório, houve um aumento nos casos de uso de IA para interferir no processo político de cerca de 50% nos últimos meses, 1,5 caso por dia. E a tendência é que esse número aumente à medida que a corrida eleitoral ganha tração e a disputa começa a esquentar. 

Enquanto nos aproximamos das eleições, do lado das big techs poucas mudanças são feitas para que as campanhas eleitorais nas redes tenham algum tipo de equilíbrio. O lucro com desinformação continua falando mais alto e o medo da regulação faz com que elas já tomem seus lados. 

O TSE, com a relatoria do ministro do Supremo Tribunal Federal, Kassio Nunes, tomou a dianteira e, com a consulta pública realizada neste ano, que teve a participação do próprio SGBR, criou regras para o uso de IA nas eleições na campanha eleitoral.  

Uma das principais é a proibição completa do uso de IA 72 horas antes e depois das votações, períodos sensíveis em que as ferramentas podem gerar impactos relevantes na opinião pública.  

“Neste ano, o tribunal também trouxe atualizações importantes que podem, sim, mitigar desinformação ou usos indevidos de IA, como a própria restrição de postagens antes e depois do dia da votação, momento crítico do processo eleitoral, e regras para chatbots de IA, tentando impedir que essas funcionalidades interfiram no voto do eleitor”, destacou Matheus Soares.  

 

Personagens fake avançam nas redes sociais  

Um fenômeno novo já observado nas redes sociais são os personagens 100% criados com IA, que emitem opiniões e são criados sob medida para influenciar o voto do eleitor. 

Um caso que viralizou nas redes, principalmente no TikTok e Instragram, foi a Dona Maria, uma personagem de inteligência artificial que ficou famosa por atacar o atual presidente nas redes, com uma postura ofensiva e falando “tudo que a gente queria falar”.  

Segundo matéria da BBC, a página dessa “dona de casa” artificial estaria batendo engajamento de grandes políticos e chegou a atingir 12 vídeos com mais de 1 milhão de visualizações. 

No entanto, segundo a coordenadora jurídica do SGBR, Camila Nasci, “o influenciador criado com IA é um tipo de deepfake e juridicamente deve ser tratado como um conteúdo sintético usado em propaganda eleitoral digital, por analogia.” 

Nasci reflete ainda que esse tipo de recurso entra na categoria de conteúdo sintético e pode ser interpretado como propaganda eleitoral automatizada e atua como um intermediário artificial da opinião pública, então se o personagem for construído de forma muito realista ou envolvente ou se é construído de forma a parecer uma pessoa comum sem deixar claro que é algo artificial pode ser interpretado como manipulação indevida da opinião pública. 

Mas o uso de IA na política não é nada novo. Donald Trump é um grande entusiasta da tecnologia e usa com bastante frequência para atacar seus “inimigos”. Durante a guerra contra o Irã, que também tem utilizado a IA para o mesmo fim, Trump usou diversas vezes, chegando a postar uma montagem dele como Jesus, e, após críticas, afirmou ter se confundido e achado que a imagem celestial era, na verdade, um médico de bata. O mandatário norte-americano usa uma tática frequente da extrema direita que é publicar conteúdo sintético polêmico para tomar o debate público de assalto e apagar posteriormente com justificativas ou desculpas esfarrapadas.  

As preocupações são evidentes porque está cada vez mais difícil distinguir o que é real e o que é gerado. E o cidadão não está preparado para identificar deepfakes ou não está interessado se o conteúdo é verdadeiro ou falso, como provou estudo do Comitê Gestor da Internet realizado entre agosto e setembro de 2026 com 5.250 usuários a partir de 16  anos. Embora admitam algum tipo de desconfiança, nem todos conseguem, de fato, distinguir informações verdadeiras de falsas. E isso está diretamente ligada à desigualdade social, de acesso à internet e de escolaridade.  O estudo destaca ainda que cerca de um terço das pessoas entende que “não vale a pena”, “não faz diferença para a vida” ou “não tem interesse” em pesquisar se as informações recebidas são verdadeiras ou falsas.   

Pelas resoluções do TSE, a rotulagem do conteúdo feito por IA é obrigatória durante a campanha eleitoral. Ter uma marca d’água ou um aviso pode ajudar na percepção de que aquele conteúdo foi gerado por IA. No entanto, muitas plataformas deixam passar conteúdo sintético sem a devida identificação.  

Sobre os rótulos, Matheus Soares completou: 

“A rotulagem é uma prática que precisa ser acompanhada por outras iniciativas, como a própria educação midiática, capaz de fortalecer as habilidades dos cidadãos não só de identificar esses conteúdos, mas também de verificar informações que recebem nas redes sociais.” 

Há um projeto que já chegou a ser aprovado no Senado, o PL 2338, que cria regras para o uso de IA no Brasil, mas infelizmente, como a maioria dos projetos de regulamentação das big techs, sofreu o lobby das empresas e aguarda sua votação na Câmara. 

É difícil brincar de futurologia, mas os prognósticos para os próximos meses não são nada bons. O campo progressista, as instituições e as organizações que combatem desinformação foram pegos de surpresa em 2018 com uma enxurrada de desinformação sem precedentes, é importante que isso não ocorra de novo. Precisamos estar atentos. 

Você pode acessar o Observatório IA nas Eleições clicando no LINK

Edição: Ana d‘ Angelo
Arte: Jonas Rodrigues 

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