A disputa presidencial de 2026 será travada em torno de um tema que, até poucos anos atrás, dividia espaço com inflação, desemprego e saúde pública: a segurança pública. Os levantamentos mais recentes mostram que a preocupação com a violência cresceu de forma consistente e se consolidou como uma das principais angústias nacionais. Em março deste ano, o Datafolha registrou que 19% dos brasileiros apontavam espontaneamente a segurança pública como o principal problema do país, praticamente empatada com a saúde, citada por 21% dos entrevistados. Outros institutos chegam a resultados semelhantes. O Paraná Pesquisas identificou a segurança como uma das maiores carências nacionais, enquanto a Atlas Intel aponta que mais da metade dos eleitores considera a criminalidade e o tráfico de drogas os maiores problemas estruturais do Brasil.Para a diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, a segurança deve ocupar o centro da disputa presidencial de 2026. “As pessoas estão realmente com muito medo, então essa vai ser a grande agenda das eleições”, afirma. Ela alerta, porém, para o risco de que o tema seja explorado de forma populista, com “propostas sem solidez técnica” ganhando espaço no debate.
A centralidade do tema já influencia a corrida eleitoral. Pré-candidatos de diferentes campos políticos passaram a apresentar propostas para a área. Lideranças da direita e da extrema direita intensificaram referências ao modelo adotado pelo presidente salvadorenho Nayib Bukele, amplamente criticado por especialistas internacionais. A aposta é simples: falar diretamente com um eleitorado que demonstra cansaço diante da sensação de insegurança.
Mas o que os brasileiros realmente querem quando falam de segurança?
Um país, muitas inseguranças
Embora a preocupação seja nacional, ela assume características distintas em cada região.
Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 revela uma clara divisão regional em relação ao tipo de criminalidade enfrentada pela população.
No Nordeste, Norte e Sudeste, o avanço do crime organizado dita o ritmo da violência: enquanto o Nordeste concentra as dez cidades mais violentas do país devido a disputas territoriais entre facções e toques de recolher que paralisam escolas, o Norte sofre com o fortalecimento de um poder paralelo que impõe “tribunais do crime” e eleva o número de desaparecimentos, com destaque para a letalidade extrema no Amapá. Já no Sudeste, a criminalidade se manifesta de forma mais econômica e patrimonial, liderando os índices de roubos de celulares e estelionatos em São Paulo, ao passo que o Rio de Janeiro convive com o impacto diário de tiroteios no entorno escolar provocados pelo controle territorial de milícias e facções.
Por outro lado, as regiões Sul e Centro-Oeste têm como principal ponto de atenção os alarmantes índices de violência de gênero, que superam os desafios do crime organizado tradicional. No Sul, o Rio Grande do Sul e Santa Catarina lideram o descumprimento de medidas protetivas e crimes de perseguição no país, evidenciando graves falhas na rede de amparo às mulheres.
O Centro-Oeste segue uma tendência parecida, consolidando-se como a única região onde todos os estados apresentam taxas de feminicídio acima da média nacional. A exceção positiva no cenário regional fica por conta de Goiás que, na contramão dos índices gerais, registrou quedas expressivas em mortes violentas intencionais, na letalidade policial e em roubos de carga, justificando uma percepção de maior eficiência no policiamento ostensivo.
O consenso e a divisão entre direita e esquerda
Os dados revelam diferenças importantes entre eleitores identificados com diferentes campos políticos.
Segundo uma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, os eleitores associados a Jair Bolsonaro apoiam o endurecimento das leis e respostas mais punitivas ao crime. Entre os eleitores identificados com Luiz Inácio Lula da Silva, há maior apoio a estratégias preventivas, como educação, assistência social e políticas voltadas para juventude.
Apesar dessas diferenças, existe um ponto de convergência: segurança pública deixou de ser uma pauta exclusiva da direita.
O próprio Nordeste, tradicional reduto eleitoral da esquerda, registra apoio elevado a propostas de endurecimento legal. Isso indica que a demanda por respostas ao crime atravessa hoje praticamente todo o espectro ideológico brasileiro.
O medo maior que a experiência direta
Um dado recorrente em pesquisas de percepção ajuda a explicar o ambiente político atual: o impacto da violência no cotidiano tende a ser muito mais amplo do que a experiência direta de vitimização ou testemunho de crimes. Enquanto indicadores de exposição direta à violência são significativamente mais baixos, levantamentos como o Datafolha mostram que a maior parte da população já alterou hábitos por medo da criminalidade. Em dezembro de 2025, 56% dos brasileiros afirmaram ter deixado de usar o celular na rua, e 31% passaram a retirar objetos de valor antes de sair de casa.
A jornalista Cecília Oliveira, fundadora da organização Fogo Cruzado, tem chamado atenção para um fenômeno importante: a percepção de insegurança nem sempre acompanha os indicadores objetivos de violência. Em diferentes momentos, mesmo diante de reduções em determinados índices criminais, a sensação de medo continua crescendo, alimentada pela circulação permanente de vídeos de violência, pela cobertura intensiva de casos criminais e pela exposição constante ao tema nas redes sociais.
Carolina Ricardo, faz uma avaliação semelhante. “A sensação de insegurança tem a ver com o medo, que é muito subjetivo”, afirma. Segundo ela, a circulação permanente de vídeos e notícias sobre crimes faz com que episódios violentos sejam revisitados constantemente, o que “alimenta o medo” mesmo quando determinados indicadores criminais apresentam queda.
Isso não significa que o problema seja imaginário. Significa que a experiência social da insegurança é mais ampla do que a vitimização direta.
Os brasileiros querem segurança, mas não necessariamente mais violência.
Essa distinção é fundamental para compreender o cenário eleitoral.
Uma pesquisa nacional encomendada pelo Instituto Sou da Paz mostrou que os brasileiros rejeitam, em sua maioria, soluções baseadas apenas na violência ou no armamento da população.
Apenas 20% concordam com a frase “bandido bom é bandido morto”. Ao mesmo tempo, 82% apoiam o uso de câmeras corporais por policiais e 65% defendem uma polícia mais preparada e qualificada. A pesquisa também mostra que a maioria prefere a aplicação efetiva das leis já existentes a propostas de simples aumento de penas.
Os resultados sugerem que existe uma diferença entre o desejo por firmeza no combate ao crime e o apoio a soluções violentas ou autoritárias.
O desafio eleitoral
É nesse terreno que se dará a disputa de 2026.
De um lado, candidatos que apostam em discursos de autoridade, endurecimento penal e referências internacionais como o modelo de Nayib Bukele. De outro, candidaturas que tentam combinar combate ao crime com políticas de prevenção e fortalecimento institucional.
O desafio para todos eles será responder a uma população que se sente cada vez mais insegura, mas que também demonstra desejar soluções concretas, eficientes e compatíveis com o Estado de Direito.
A eleição pode ser definida não apenas por quem conseguir falar mais sobre segurança pública, mas por quem convencer os eleitores de que é capaz de produzir resultados reais.
Edição: Ana D’Angelo
Designer: Cláudio Franchini