Democracia em crise: só 7% da população mundial vive em regimes democráticos liberais

A democracia no mundo vive um de seus momentos mais críticos nas últimas décadas. Segundo o Relatório sobre democracias de 2026, do instituto V-Dem o nível médio de democracia experimentado pela população global voltou ao patamar de 1978, apagando grande parte dos avanços registrados desde a chamada terceira onda de democratização, iniciada em 1974 com a Revolução dos Cravos, que derrubou o regime autoritário de Portugal. 

O estudo, considerado um dos principais monitoramentos globais da qualidade democrática, analisa mais de 200 países e territórios e reúne mais de 32 milhões de dados sobre instituições políticas, liberdades civis e processos eleitorais. 

Os resultados apontam que o mundo vive uma nova onda de autocratização, com aumento simultâneo de regimes autoritários e enfraquecimento de instituições democráticas. 

De acordo com o relatório, a maioria da população mundial vive hoje sob regimes autocráticos. Isso representa cerca de 6 bilhões de pessoas vivendo sob governos com baixos níveis de liberdade política. 

Além disso, apenas 7% da população mundial vive em democracias liberais. 

O relatório também mostra um crescimento acelerado no número de países que estão em processo de retrocesso democrático, quase 25%. 

Em 2005 havia 12 países autocráticos no mundo, em apenas 20 anos o número saltou para 44 países. 

Entre os principais sinais de deterioração democrática apontados pelo estudo está o ataque à liberdade de expressão. Segundo os pesquisadores, 44 países apresentaram piora nesse indicador em 2025. 

Outro mecanismo recorrente de governos em processo de autocratização é a censura. Cerca de 33% dos países autocráticos (73%) utilizam essa tática. 

Para a pesquisadora Andressa Liegi Vieira Costa, do Instituto Democracia em Xeque, o avanço de regimes menos democráticos está ligado ao fortalecimento de atores políticos que passam a questionar as próprias regras do sistema democrático. “O ponto central é a ascensão — e normalização — de líderes, partidos e movimentos antidemocráticos, que aparecem como força condutora desse processo de autocratização”

O relatório também aponta que grandes países e potências econômicas estão entre os responsáveis pela deterioração global da democracia. 

 

EUA têm processo acelerado de concentração do poder no Executivo 

Entre os casos mais emblemáticos está o dos Estados Unidos, que deixaram de ser classificados como uma democracia liberal e passaram a ser uma “democracia eleitoral”, um grau menor no ranking do levantamento. Segundo o relatório, o país passa por um processo acelerado de concentração de poder no Executivo sem precedentes. 

Segundo a Human Rights Watch, o segundo mandato de Donald Trump tem sido marcado por violações generalizadas de direitos humanos, incluindo repressão a protestos antigovernamentais e ameaças de uso de força contra manifestantes. 

Nos Estados Unidos, operações de imigração conduzidas pelo ICE intensificaram esse cenário. Em Minneapolis e Saint Paul, uma grande operação resultou em mais de 4 mil prisões, além de tiroteios fatais envolvendo agentes federais e milhares de processos judiciais por violação do devido processo legal. Pelo menos 32 pessoas morreram sob custódia em 2025. 

O governo também aprovou um memorando de segurança nacional que autoriza agências federais a investigar ou mirar indivíduos e organizações por opiniões consideradas “antiamericanas”, “anticristãs” ou “anticapitalistas”. 

Além disso, o relatório destaca queda na liberdade religiosa, citando a crescente incorporação de símbolos cristãos, versículos bíblicos e orações em atividades oficiais do governo federal. 

A deterioração da democracia ocorre em um contexto de profunda transformação do ambiente informacional global, marcado pelo papel central das plataformas digitais no debate público. 

 

O papel das big techs neste cenário  

Hoje, grande parte da circulação de informação política acontece em redes sociais e plataformas digitais, o que torna esses ambientes decisivos para a qualidade do debate público e democrático. 

Após as eleições de Donald Trump, as big techs se alinharam ao governo de Donald Trump e optaram por seguir suas ideologias. Algumas delas, como o antigo Twitter (agora X) e a Meta, dona do Instagram e do Facebook, anunciaram relaxamentos em suas políticas de moderação e diversidade. 

Além disso, o modelo de negócios das plataformas digitais tende a amplificar conteúdos polarizadores, já que o engajamento gera mais receita publicitária. 

Para Costa, essa dinâmica econômica contribui para a circulação de conteúdos problemáticos nas redes. “Conteúdos polarizadores e problemáticos tendem a gerar maior engajamento nas plataformas, o que reduz o interesse real das empresas em diminuir a presença desse tipo de conteúdo”, explica.

Um fator que evidencia isso foi destacado em 2025, no dicionário Oxford, como a palavra do ano, “rage bait”, uma estratégia difundida nas redes que tem o objetivo de provocar discussões e gerar engajamento através do ódio. 

De acordo com a pesquisadora, a disputa política nas redes também envolve a construção de narrativas que transformam adversários em inimigos e manipulam o debate público. “Constrói-se uma narrativa de luta do bem contra o mal, na qual líderes antidemocráticos se apresentam como os verdadeiros defensores da democracia”, afirma.

Há também outras formas de ataque à democracia, como a utilização da tortura por países autoritários, que atingiu 33 países em 2025. 

O estudo da V-Dem conclui que a atual onda de autocratização representa um dos maiores desafios políticos das últimas décadas, com impactos diretos sobre a liberdade de expressão, o funcionamento das instituições e a qualidade da informação disponível à população. 

É essencial estarmos atentos. Estamos vendo tecnocracias cada vez mais poderosas no mundo, com a informação concentrada nas mãos de poucos e discursos autoritários ganhando força até mesmo em democracias consolidadas estão em perigo. 

O relatório completo da V-Dem pode ser acesso através do link 

Edição: Ana D’Angelo
Arte: Cláudoi Franchini

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