O Brasil foi destaque no maior evento de extrema-direita nos Estados Unidos neste final de semana. Apresentando-se como pré-candidato à presidência, o senador Flávio Bolsonaro discursou no palco principal da CPAC (sigla em inglês para Conferência de Ação Política Conservadora) no último sábado (28), onde incentivou pressão diplomática sobre as eleições brasileiras.
“O Brasil será o campo de batalha onde o futuro do nosso hemisfério será decidido”, disse.
“Meu apelo aqui, não apenas aos Estados Unidos, mas a todo o mundo livre é que assistam as eleições do Brasil com atenção, aprendam sobre nosso processo eleitoral, monitorem a liberdade de expressão do nosso povo e apliquem pressões diplomáticas para que nossas instituições funcionem adequadamente.”
A fala foi recebida por aplausos e gritos de “Bolsonaro livre” e “Presidente” da plateia, onde estavam centenas de brasileiros, sendo 20 políticos, dos quais 17 possuem mandatos ativos pela Câmara dos Deputados, por Assembleias estaduais ou por Câmaras Municipais do país. Entre eles estavam os deputados federais Júlia Zanatta (PL-SC), Mário Frias (PL-SP) e Marcos Pollon (PL-MS), e os deputados estaduais por Minas Gerais, Bruno Engler (PL) e Cristiano Caporezzo (PL-MG).
Segundo o deputado Eduardo Bolsonaro, essa teria sido a maior participação de autoridades no evento na história. “Estou muito feliz porque esse é o CPAC com o recorde de autoridades do Brasil aqui. Você tem deputados, vereadores, candidatos. Então o que estamos fazendo é falar em alto e bom som que não temos medo do Alexandre de Moraes, vamos ganhar essa eleição, vamos perdoar Jair Bolsonaro e os Estados Unidos terão o maior aliado de todos na presidência no próximo ano”, disse.
A participação brasileira na conferência também foi lembrada durante a abertura do evento, quando integrantes da diretoria da organização aprovaram uma moção de repúdio ao Judiciário Brasileiro e ao governo Lula, por suposta “perseguição a opositores”. “O que estamos vendo não é Justiça, é uma guerra jurídica feita para suprimir a liberdade de expressão e afetar as eleições a favor do regime de Lula”, disse a diretora da organização, Mercedes Schlapp, referindo-se à prisão de Jair Bolsonaro e à suspensão do visto de Darren Beattie, assessor do Departamento de Estado dos EUA.
Foi também a primeira vez que o evento nos EUA teve como palestrantes dois brasileiros. Além de Flávio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro – cassado por abandono do mandato na Câmara ao mudar-se para os Estados Unidos – subiu ao palco da conferência na sexta-feira (27), para falar sobre a presença internacional do CPAC.
O ex-parlamentar foi responsável pela realização de cinco edições da conferência no Brasil, entre 2019 e 2024. “Fomos ao Brasil com Eduardo Bolsonaro e percebemos que os livros escolares estavam ensinando crianças de apenas 9 anos sobre diferentes maneiras de expressar suas sexualidades e até sobre transição de gênero”, lembrou o diretor da conferência, Matt Schlapp, em referência ao suposto ‘kit gay’ – boato que foi disseminado durante a campanha de 2018 de Jair Bolsonaro (PL).
Havia a previsão para que uma nova edição da conferência fosse realizada no ano passado na cidade de Manaus, mas o evento acabou não ocorrendo. Eduardo também não deu previsão para a realização da próxima CPAC Brasil. O ex-parlamentar foi apresentado como “deputado em exílio” e subiu ao palco com o celular nas mãos.
“Sabem porque estou fazendo esse vídeo? Porque vou mostrar para o meu pai e vou mostrar para todos no Brasil que você não pode acabar com um movimento prendendo seu injustamente seu líder, Jair Messias Bolsonaro”, disse.
A ação foi vista como uma possível violação de condicional do ex-presidente, que está proibido de usar redes sociais por decisão judicial.
Apesar de serem autoridades de governo, parlamentares brasileiros foram ao evento como participantes, não convidados. Os ingressos para participação foram vendidos a partir de 47 dólares e as estadias no hotel que recebeu a conferência custavam em torno de 300 dólares a diária. A reportagem questionou os políticos sobre os gastos de viagem e participação, mas não obteve resposta até a publicação.
Caso tenha sido paga com recursos públicos, a participação brasileira na conferência pode ter custado mais de 25 mil dólares ao erário.
O evento também acolheu como integrantes da imprensa desinformadores brasileiros contumazes, como o blogueiro Allan dos Santos, foragido nos EUA desde 2021, o influenciador Eduardo Matos, conhecido por disseminar áudios sintéticos de autoridades brasileiras nas redes sociais, e o comediante Augusto Pacheco, do canal Hipócritas.
A matéria é uma colaboração de Ethel Ethel Rudnitzki, repórter especializada no combate à desinformação e checagem de fatos. Formada pela Universidade de São Paulo, fez parte das redações do Aos Fatos e da Agência Pública.