Racismo online cresce e atinge mais as mulheres negras

Número de denúncias bateu recorde em 2024; agressões são majoritariamente praticadas por homens brancos adultos e exploram anonimato das redes sociais.

O racismo no ambiente digital não só reflete, como também amplifica desigualdades estruturais do Brasil. É o que mostra um relatório inédito do Observatório de Racismo nas Redes, do Aláfia Lab, que analisou dados do Disque 100, obtidos via Lei de Acesso à Informação, sobre denúncias de racismo e injúria racial entre 2011 e 2025.

O levantamento aponta que 2024 foi o ano com maior número de registros da série histórica, totalizando 452 casos de racismo digital denunciados.

Mulheres negras são as principais vítimas

Segundo os dados, 90% das vítimas que informaram cor se declararam negras — sendo 66% pretas e 24% pardas. A pesquisa revela ainda a presença de um padrão de colorismo, já que pessoas de pele mais escura são as mais atingidas.

Entre as vítimas, as mulheres representam 61% dos casos, enquanto os homens correspondem a 37%.

Quem são os agressores

Nos casos em que foi possível identificar o perfil do suspeito, 70% eram pessoas brancas e 55% do sexo masculino. A maioria tem entre 25 e 40 anos, faixa etária de adultos economicamente ativos e com forte presença nas redes sociais.

O peso do anonimato

Um dos pontos críticos destacados pelo relatório é o chamado “deserto de dados”: em grande parte das denúncias, informações como cor, idade e gênero dos agressores não são registradas. Essa lacuna evidencia como o anonimato digital facilita a impunidade e dificulta a responsabilização judicial.

Violência contra a integridade e grupos vulneráveis

Entre 2020 e 2022, as agressões mais recorrentes foram injúria, constrangimento e ameaças, caracterizando sobretudo violência verbal e psicológica.
O estudo também mostra que o racismo digital não atua isoladamente, mas se entrelaça com outras formas de opressão:

  • 33% dos casos envolveram violência contra mulheres;
  • 11% vitimaram crianças e adolescentes;
  • quase 10% ocorreram em contexto de violência doméstica, revelando que muitas vezes os agressores fazem parte do círculo íntimo das vítimas.

Estratégia de invisibilidade

Inspirado na reflexão da escritora Toni Morrison, o relatório aponta que o racismo contemporâneo opera cada vez mais de forma abstrata e mascarada, travestido de neutralidade técnica, meritocracia ou discurso legalista. Isso dificulta seu enfrentamento e desvia o foco para episódios pontuais, enquanto a estrutura racista permanece intacta.

“Identificar, descrever e desmantelar o racismo é urgente”, defende o documento, citando Ibram X. Kendi, pesquisador norte-americano referência em políticas antirracistas.

 

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