Quando a tela trava, quando o sistema enlouquece, quando nada mais responde… a estratégia é reiniciar a máquina, encerrar o que está rodando por trás do software, e tentar recuperar algum controle sobre a tecnologia. Esta é a CTRL+ALT+DELulu: uma coluna que nasce do atalho clássico a que recorremos em momentos de desespero digital, num momento em que o clima delulu parece ter tomado conta do campo da tecnologia. Fazendo um reboot bem-humorado e crítico, a gente tenta quebrar o discurso tecnomágico, para desmistificar os bastidores da indústria de big tech e responsabilizar as empresas pelos seus impactos nas nossas vidas.
Hoje, nosso reboot começa onde as big techs mais odeiam estar: no banco dos réus. Os Estados Unidos se tornaram palco, a partir desta semana, de um acerto de contas que as gigantes da tecnologia passaram a última década tentando evitar. Uma sequência de julgamentos leva Meta (Instagram e Facebook), Snap (Snapchat), TikTok e YouTube ao tribunal sob uma acusação central e explosiva: a de que seus produtos não induzem a uso excessivo “por acaso”, mas, sim, são projetados para viciar, e esse projeto tem causado danos concretos à saúde mental e ao bem-estar de jovens e crianças.
Esses casos são importantes porque podem redefinir a fronteira do que é aceitável no design de produtos digitais, e abrir caminho para uma nova era de responsabilização e regulação: não baseada apenas no que circula nas plataformas, mas no que as plataformas fazem com as pessoas, especialmente as que ainda estão formando seu repertório emocional, autoestima e visão de mundo.
O que distingue esses julgamentos é uma abordagem legal inovadora: em vez de focar na moderação de conteúdos, os advogados argumentam que as plataformas são, em sua essência, “produtos defeituosos”. Essa teoria legal sustenta que o design inerente das redes sociais, e não somente o conteúdo malicioso postado por terceiros, é a causa direta dos seus danos.
Os julgamentos lembram os processos contra a indústria do tabaco nos anos 90: quando o argumento de que “cada um é responsável pelo que consome” foi confrontado pela pergunta sobre o que as empresas sabiam, quando souberam, e o que fizeram — ou deixaram de fazer — apesar de saberem dos danos causados pelos seus produtos.
As vítimas, que incluem dezenas de pais, mães e indivíduos, alegam que as empresas de tecnologia implementaram intencionalmente recursos de design viciantes. Entre esses recursos estão a rolagem infinita do feed, notificações constantes, reprodução automática de vídeos e algoritmos que priorizam o engajamento máximo. Elas afirmam que o uso compulsivo resultante dessas características levou a uma série de problemas de saúde mental em jovens, como depressão, ansiedade, transtornos alimentares, automutilação e, em casos trágicos, suicídio.
A defesa das empresas de tecnologia, representada, até agora, por figuras como Mark Zuckerberg, CEO da Meta, e Adam Mosseri, CEO do Instagram, vem com um kit de argumentos já conhecido. Primeiro, eles alegam que é o valor entregue pelas suas plataformas que faz com que seus usuários queiram usá-las mais e mais, e não uma arquitetura viciante. Em seguida, empurram a responsabilidade para o colo das famílias, reforçando que cabe aos pais supervisionar o uso das redes sociais pelos filhos. De quebra, exibem novas ferramentas de controle parental como prova de sua boa vontade. Por fim, batem na tecla de que não existe um nexo causal direto e “cientificamente comprovado” entre suas plataformas e o agravamento da saúde mental de jovens, enquanto repetem que investem bilhões em segurança e bem-estar.
No entanto, dessa vez, o roteiro preparado cuidadosamente pelo jurídico está dando uma travada. Documentos internos e comunicações da própria Meta, revelados durante os julgamentos, contradizem significativamente a defesa da empresa. Evidências mostram que funcionários da Meta utilizavam o termo “uso problemático” como um codinome para evitar a palavra “vício” e suas implicações legais. Pesquisadores internos foram instruídos a deletar dados de estudos que mediram o impacto emocional negativo dos produtos da empresa, e alertas sobre filtros que causavam dismorfia corporal foram ignorados em favor de metas de crescimento. Além disso, auditorias internas também revelaram a ineficácia de muitas das ferramentas de segurança e controle parental utilizadas pela empresa até 2022.
Na última quarta-feira, em um dos momentos mais aguardados do julgamento, Mark Zuckerberg prestou depoimento. Documentos internos, como e-mails trocados com executivos da empresa, revelaram que Zuckerberg (ao contrário do que disse ao Congresso americano em 2024) havia estabelecido metas para aumentar o tempo de uso das plataformas em 12% no ano de 2016. Além disso, na época, a empresa tinha conhecimento da presença de milhões de usuários menores de 13 anos no Instagram. Diante dessas evidências, Zuck tentou defender a Meta, argumentando que sua visão e métricas evoluíram ao longo dos anos, e que as ferramentas de controle parental atuais são eficazes (o famoso “agora vai”). No entanto, a reação das vítimas, pais e especialistas foi de indignação e descrença, com muitos acusando Zuckerberg de mentir sob juramento, e de priorizar o lucro em detrimento da segurança e da saúde mental de jovens e crianças.
As big techs correm um risco considerável nesses julgamentos — do tipo que não se resolve com um post dizendo “investimos bilhões em segurança” no blog da firma. Uma derrota nesses que são chamados “julgamentos de referência”, porque vai funcionar como amostra para milhares de outros processos, pode destravar um efeito dominó, com indenizações bilionárias e uma avalanche de novas condenações. E mais: não é só sobre as indenizações. Um veredicto desfavorável pode obrigar essas empresas a fazer o impensável, mexer no design e redesenhar suas plataformas, removendo ou alterando justamente os recursos que mantêm a gente grudado na tela. O cenário geral também pode empurrar uma onda regulatória mais dura e mais efetiva sobre o design e as práticas das redes sociais — impactando de verdade, quem sabe, o modelo de negócios e de operação dessas gigantes da tecnologia. Que a coragem dessa dezena de pais, mães, jovens e crianças ajude a transformar dor em proteção, impunidade em responsabilidade.