4 dias vivenciando a Mostra Tiradentes: Viva o cinema brasileiro!

Durante minhas andanças pelas ruas de pedra de Tiradentes, pude prestar atenção ao redor e perceber como o cinema se fazia presente para além das telas. A Mostra de Cinema transformou a cidade de 8 mil habitantes que, durante o evento, passa a comportar cerca de 30 mil pessoas ao longo de nove dias, em um grande espaço de encontro, onde filmes, debates e conversas se misturam à rotina local. 

Nas discussões pelo Brasil afora, há quem critique o fato de o dinheiro dos contribuintes ser destinado a produções cinematográficas, muitas vezes alegando que são filmes pouco vistos. Mas será que essa é realmente a questão central? Pessoas comuns, que não são ligadas ao cinema, assistiriam a um documentário de duas horas. Assistiriam, sim. Durante a Mostra, foi possível ver famílias, crianças, casais jovens e idosos acompanhando todo tipo de produção. O cinema aberto, montado no centro da cidade e dedicado a exibição de longas e curtas, esteve sempre lotado. 

Quando se dá acesso, as pessoas assistem. Existe uma falácia recorrente contra o cinema brasileiro, frequentemente alimentada por discursos extremistas que o acusam de ser ruim. O cinema brasileiro, que está em seu segundo ano consecutivo levando filmes ao Oscar, é considerado ruim apenas por aqueles que odeiam a arte ou desconhecem as produções brasileiras. 

Ali, a predominância era de pessoas progressistas, o que se refletia também na escolha das produções exibidas, especialmente os documentários, como Aurora e Meu Tio da Câmera. 

O pouco tempo disponível e a soma de trabalhos me permitiram assistir a apenas duas produções, e é sobre elas que falo aqui, sem qualquer tipo de spoiler, para que você procure assisti-las com seus próprios olhos, pois realmente valem a pena. 

Uma delas foi o documentário Meu Tio da Câmera, do diretor Bernard Lessa. A produção conta a história de uma família, predominantemente masculina, por meio das lentes da câmera do pai, que registrou momentos ao longo de décadas. Trata-se de uma família de classe média de Vitória, no Espírito Santo. Essa produção, aparentemente simples, carrega algo muito importante. Durante todo o documentário, o espectador passa a se sentir parte daquela família, cria laços e se envolve emocionalmente. Ao final, o filme apresenta uma descoberta impactante. Não houve um único espectador, entre mais de uma centena presente na sessão, que não vibrasse com a revelação. 

A outra produção foi Aurora, um documentário extremamente impactante do diretor João Vieira Torres. O filme reconstrói a ancestralidade do diretor a partir de um sonho em que recebe a visita de sua avó. A jornada é forte e comovente e traz à tona a violência estrutural de gênero e racial que atravessa sua família e tantas outras no Brasil, uma realidade que muitos preferem esconder ou fingir que não existe. 

 

Debates e política  

Durante a Mostra, também ocorreu um importante debate sobre a regulação dos streamings. Ficou evidente que não há um consenso em torno dos projetos em discussão, mas todos os participantes concordaram que, apesar das falhas, a regulação é necessária. 

A principal preocupação levantada foi a janela apertada para a aprovação do projeto. Este é um ano eleitoral e, caso não haja avanço nos próximos meses, a proposta pode ficar para o próximo Congresso. O receio é que esse novo Congresso seja ainda mais conservador e acabe travando a pauta por mais tempo. 

Atualmente, dois projetos concentram o debate. O PL 2331, que teve início no Senado e aguarda votação para seguir à sanção, e o PL 8889, originado na Câmara dos Deputados, que, se aprovado, substitui o texto do Senado. Há divergências nos textos e uma demanda por questões de diversidade. Participaram da mesa João Brant, secretário de Políticas Digitais do Governo Federal, Mariza Leão, produtora audiovisual do Rio de Janeiro, Patrícia Barcelos, diretora da Ancine, e Tiago de Aragão, diretor Centro-Oeste da API. 

 

Uma experiência para todos  

Ao longo das caminhadas entre os diferentes espaços do evento, foi possível perceber o quanto o brasileiro gosta de filmes. Conversas sobre cinema surgiam o tempo todo. Pessoas descobrindo novas produções, debatendo entre si e provando que o cinema faz parte da nossa cultura. Mesmo em uma cidade do interior, não estavam ali apenas cinéfilos. Crianças, pais e avós assistiam juntos e refletiam sobre o que viam. 

Durante as exibições ao ar livre, quando a chuva dava trégua, a praça ficava completamente lotada. Filmes de todos os gêneros eram exibidos, alguns com forte conteúdo político, outros focados em sua estética e beleza. Todos assistidos com atenção. 

É por isso que surge a necessidade de mais investimento no cinema brasileiro. Muitas dessas produções não chegam ao grande público, e isso alimenta os ataques ao setor. As pessoas não assistem porque não têm oportunidade. 

 

Soberania imaginativa  

O tema da Mostra de Tiradentes deste ano foi soberania imaginativa. Ao longo do evento, diversos entrevistados foram questionados sobre o significado do conceito. Antes de apresentar essas visões, deixo também a minha interpretação. 

Para mim, soberania imaginativa tem relação direta com criatividade. O brasileiro é criativo e essa criatividade funciona como forma de defesa. Em um cenário global em que a soberania de muitos países está à mercê de interesses econômicos e políticos, o que nos resta para nos defendermos é a criatividade. 

Tatiana Carvalho definiu soberania imaginativa como “a liberdade do imaginário e as múltiplas possibilidades da criação no cinema”. Para ela, trata-se da “possibilidade de a gente, enquanto sociedade, enquanto povo, se expressar e se ver”. Tatiana também ressaltou que não basta discutir soberania sem garantir políticas de Estado que assegurem a permanência do cinema brasileiro. 

Francis Vogner, curador da Mostra, afirmou que “a soberania imaginativa, hoje, é um modo de pensar e intervir no audiovisual brasileiro”. Para ele, trata-se de uma dimensão política, cultural e social, além de uma forma de imaginar futuros possíveis, formular o presente e se orientar a partir das lutas passadas. 

Raquel Hallak, coordenadora da Mostra, definiu soberania imaginativa como “liberdade de expressão” e afirmou que a imaginação é a forma mais pura de fazer cinema, permitindo “imaginar outros mundos possíveis”. 

Samara Castro, chefe de gabinete do ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, afirmou que soberania imaginativa está ligada à capacidade de usarmos nossos recursos criativos para “construir, de fato, um país que absorva o melhor da nossa criatividade, o melhor dos nossos sonhos e que caminhe para um futuro cada vez mais cheio de conquistas”. 

Áurea Carolina destacou que soberania imaginativa está ligada ao livre olhar e ao pensamento crítico, ressaltando a “conexão profunda entre a democracia vivida no cotidiano, nas relações e nos valores como forma de convivência”. 

Durante todo o evento, um elemento chamou atenção pela capacidade de gerar interação. O álbum de figurinhas do cinema brasileiro, presente em edições anteriores e retomado neste ano com patrocínio da Petrobras, conquistou crianças e adultos. O álbum reunia figurinhas de filmes já patrocinados pela empresa, como Cidade de Deus, Besouro, Estômago e O Agente Secreto, produção que concorre a quatro Oscars neste ano. 

A iniciativa aproximou pessoas que já gostam de cinema e apresentou o audiovisual nacional àquelas que não têm o hábito de assistir. A troca de figurinhas se tornou parte da experiência da Mostra. 

 

Propostas para o audiovisual  

Criado em 2023, o Fórum de Tiradentes surgiu com o objetivo de debater e formular propostas concretas para o audiovisual brasileiro durante a pandemia. Em sua quarta edição, o Fórum reúne mais de 70 profissionais da área e é dividido em grupos de trabalho voltados à formação, produção, exibição, distribuição, preservação e observatório. 

Segundo Tatiana Carvalho Costa, “o Fórum tem conseguido pautar o debate e fortalecer e provocar melhorias na política pública”. 

O cinema brasileiro é rico em sua forma própria de fazer cinema, com identidade, imaginação e técnica. O país chega ao segundo ano consecutivo concorrendo ao Oscar, com O Agente Secreto neste ano e Ainda Estou Aqui no ano anterior. No entanto, o cinema brasileiro vai muito além desses títulos. Na Mostra de Tiradentes, produções de 23 estados foram exibidas, somando mais de uma centena de filmes independentes. 

Ao falar sobre o impacto da Mostra na cidade de Tiradentes, Tatiana destacou que a iniciativa transforma a relação da população com o cinema. Segundo ela, “isso nos mostra a força das mostras e dos festivais de cinema pelo país” e reforça a importância de políticas de Estado que garantam o acesso ao audiovisual em cidades sem salas de cinema. 

Raquel Hallak lembrou que a Mostra de Tiradentes foi o primeiro festival a oferecer um programa de formação com oficinas e debates. Para ela, “nós estamos aqui discutindo filmes, mas também as histórias que estamos vendo nas telas, a maneira como esses filmes são feitos e sob quais condições”. 

Em um contexto de ataques constantes às leis de incentivo à cultura, frequentemente impulsionados por desinformação, Samara Castro destacou que o governo entende como sua função combater esse tipo de narrativa, utilizando educação midiática e informação qualificada. 

Por fim, Francis Vogner criticou a lógica das plataformas de streaming, que tendem a uniformizar as produções. Para ele, trata-se de “um empreendimento colonial”. Segundo o curador, mesmo produções feitas no Brasil acabam adquirindo a estética da plataforma, já que “essa lógica está nos modelos de mercado, na educação do audiovisual e até na formação cognitiva dos espectadores”. 

Saio desta experiência melhor do que fui. Compreendo como a nossa cultura é rica e abundante e como devemos protegê-la e incentivá-lá cada vez mais, pois há quem queira roubá-la. E, como foi dito no início do evento, grito também as palavras: viva o cinema brasileiro, viva! 

 

Arte: Claudio Franchini

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